O responsável da Confederação Nacional das Associações de Pais que congrega, coordena e representa o movimento associativo de pais, a nível nacional, fala sobre o potencial da plataforma SAPIE-EB. Sublinha, nomeadamente, que este projeto de promoção do sucesso escolar pode fazer toda a diferença no envolvimento das famílias com a escola.

 

Associação Tempos Brilhantes: Como é que a CONFAP vê atualmente o problema do insucesso escolar em Portugal?

Jorge Ascenção: Olhamos para este quadro com muita apreensão. Normalmente as razões deste insucesso são atribuídas aos jovens e crianças e às suas famílias mas, sem descurar essa realidade que depende muito de cada caso, cremos que é necessário que o sistema de ensino olhe também para si próprio. É importante que se veja que há jovens que não têm simplesmente interesse pela escola, uma situação que leva depois inevitavelmente ao absentismo e ao abandono.

Desde que o ensino se tornou obrigatório que o abandono passou de fora da escola para dentro da própria escola. Há alunos a quem o espaço da escola, hoje, não diz nada ou diz muito pouco. É o próprio modelo de ensino que está em causa. Como diria o Professor Joaquim Azevedo, “não são os jovens que abandonam a escola, é a escola que os expulsa”. De facto assiste-se a uma evolução do discurso mais rápida do que a mudança das práticas, que na generalidade se mantêm quase inalteradas.

No que diz respeito às famílias reconhecemos que, em algumas situações, deve ser exigido um envolvimento responsável na relação com a escola mas também é verdade que, muitas vezes, por detrás de um aparente desinteresse está uma grande desadequação entre o tempo da escola e o tempo da família. O tempo que a escola disponibiliza para as famílias não é o tempo que as famílias têm. Existe legislação que procura salvaguardar tempo para o apoio à família, mas sabemos que demasiadas vezes esta não é aplicada. É uma questão para a qual devia ser mais sensibilizado também o próprio setor empresarial.

Mas voltando à sua questão, temos que nos perguntar porque é que tantos jovens e crianças não querem hoje estar na escola. Depois de tantos anos e de tantas medidas, porque é que só conseguimos que eles estejam na escola se os obrigarmos? O sistema tem de se interrogar sobre porque é que isto está a acontecer. Temos de passar a olhar para esta situação numa perspetiva mais macro e menos atomizada.

Jorge Ascenção CONFAP e SAPIE

ATB: Mas atualmente existem, para além da questão de fundo que enuncia, estratégias que pretendem combater este insucesso. Como é que a CONFAP as avalia?

JA: Parece-nos que, no plano teórico, temos um plano e uma orientação bem definidos. A lei da educação inclusiva foi revista e continua a ser uma das melhores da Europa nesta área. Teoricamente temos uma estratégia razoável e sustentável para combater o atual quadro de insucesso. No entanto falhamos na sua implementação. Como disse as práticas são muitas vezes contraditórias com o discurso e sem o envolvimento parental, sem o conhecimento mutuo entre a Escola e a Família dificilmente a promoção do sucesso será eficaz.

Veja-se por exemplo a avaliação, quando os alunos não atingem os resultados pretendidos logo se apontam responsabilidades aos próprios e às famílias, afastando-a ainda mais do processo educativo, sem que exista a preocupação de perceber as verdadeiras causas destes insucessos e as responsabilidades do próprio sistema ou do modelo de trabalho.

Há presentemente a preocupação, e bem, em recolher elementos acerca da fragilidade de cada aluno para que se possa fazer uma intervenção mais assertiva na melhoria das aprendizagens. Com esta informação é necessário assegurar um envolvimento cabal, efetivo e consciente dos principais interessados no processo de melhoria, as famílias e os professores. Sem este envolvimento e responsabilização estas ideias, que são positivas, tornam-se inconsequentes e esvaziam-se.

Depois temos também o próprio modelo de ensino das escolas que está compartimentado. Há muito pouco trabalho de grupo e de equipa. Para haver o envolvimento que já referi, o modelo de ensino tem que ser participado e essa não é a regra. De salientar que o “sucesso” de muitos alunos só acontece pelo envolvimento das suas famílias que os apoiam, com a escola e para além dela sempre que necessário.

Infelizmente o atual sistema de avaliação baseia-se essencialmente em testes e exames e privilegia a seleção e a segregação. É uma matriz que não apoia nem potencia a melhoria da aprendizagem, do conhecimento e a aquisição de competências, que se adapte da melhor forma

ao potencial de cada aluno. A avaliação faz parte do processo de aprendizagem e deveria ser um instrumento pedagógico de melhoria e de integração. Avaliar par aperceber as fragilidades, implementar as adequadas ações de melhoria e progredir. O verdadeiro combate ao insucesso também vai depender duma visão diferente sobre o processo avaliativo, dos alunos e do sistema, mas ainda não é este o caminho que percorremos no sistema educativo.

ATB: E neste contexto que comentário lhe merece o lançamento do SAPIE-EB?

JA: É um projeto que me parece muito interessante e com excelentes potencialidades, desde logo no desígnio de que falava atrás, sobre a necessidade de um maior envolvimento e conhecimento entre a Escola e a Família. Parece-me uma ideia bem fundamentada e que permitirá um acompanhamento informado do processo educativo e das aprendizagens, pois o acesso à informação torna-se mais fácil e mais rápido. A escola pode, desta forma, antecipar uma série de questões e atuar mais preventivamente.

Também sei que a ATB está a analisar a minha sugestão, para a possibilidade da plataforma incluir uma dimensão relacionada com o Movimento Associativo Parental. Para nós, nas Associações de Pais e Encarregados de Educação, federações e CONFAP é muito importante o contacto e a informação dentro do próprio Movimento, como com a Escola e com as famílias.

Esta plataforma será com certeza uma importante ajuda no desenvolvimento e eficácia do nosso trabalho, até pela enorme restrição de recursos e de tempo de que dispomos nesta missão tão relevante para o envolvimento parental na vida escolar dos filhos. Estou ansioso por poder testar o seu funcionamento. Sinceramente estou muito esperançado!

ATB: Vê o SAPIE-EB também como uma ferramenta que pode ajudar a melhorar a relação entre a escola e as famílias que é, como já referiu, uma fragilidade do atual sistema?

JA: Sim, esta plataforma pode contribuir para melhorar a eficácia da comunicação entre os vários intervenientes no processo educativo das crianças e dos jovens. Ainda assim quero que fique claro de que não podemos comunicar só através de meios digitais e, por isso, o contacto pessoal entre as várias partes não pode ser dispensado, pelo contrário deve ser realçado e consolidado.

É fundamental que as pessoas vão à escola, se encontrem e falem pessoalmente também. Como diria o Pacheco Pereira, o centro da escola deve ser “a relação”, até mais do que o aluno. Este aspeto interpessoal e humano é fundamental.

No entanto, com a atual falta de tempo e o desencontro de horários entre os empregos e a escola, este instrumento pode vir a ser um contributo importante para encurtar as distâncias e envolver as famílias no(s) processo(s). Uma solução destas pode facilitar a informação e o entendimento e, assim, prevenir algumas situações, evitar que outras se agravem e evitar algum afastamento das pessoas, já que o acesso facilitado à informação contribui certamente para que se sintam mais implicadas.

Conheço escolas que apostam na comunicação com as famílias, com mais ou menos inovação tecnológica, que testemunham uma clara evolução ao nível do envolvimento parental e consequente melhoria de resultados.

ATB: Mas vê, mais uma vez, a implementação como um desafio?

JÁ: Sim, devemos saber por a tecnologia ao nosso serviço, sem desumanizar o sistema. Esperamos que a plataforma seja posta ao serviço da qualidade do funcionamento do sistema educativo, não para cada um ter o melhor que quer, mas para todos terem o melhor possível.

ATB: E como é que a CONFAP poderá contribuir para esta visão que acaba de descrever?

JA: Nós temos números bastante relevantes nos nossos canais de comunicação (sites, contactos e fóruns), com uma implantação no terreno e uma projeção que pode dar um grande impulso e reforçar a informação sobre o SAPIE-EB. Tratando-se de uma ferramenta que procura contribuir para o progresso do sistema educativo, não podíamos deixar de estar disponíveis para facilitar o seu conhecimento nos vários territórios.

Iremos apoiar as pessoas a compreenderem a mais-valia desta ferramenta e também para o Movimento Associativo Parental, esperando que a CONFAP possa vir a ter uma área na plataforma para melhor desenvolver o trabalho com as suas as associadas.