Pedro Cordeiro é Doutorado em Psicologia da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. É docente do Instituto Politécnico de Leiria e Investigador Principal do Projeto SAPIE-EB, pela Associação Tempos Brilhantes. Tem experiência profissional em Psicologia escolar, designadamente de Orientação Escolar e Profissional e é autor de várias publicações científicas em revistas internacionais de revisão por pares.

 

Associação Tempos Brilhantes: O Projeto SAPIE-EB, que é fruto da sua prática como investigador e académico, nasce da existência de um problema, o insucesso escolar, mas também de novas oportunidades para o enfrentarmos com a ajuda das novas tecnologias. Como é que tudo começou?

Pedro Cordeiro: O SAPIE-EB nasce da reflexão em torno da importância da motivação para o sucesso escolar e da identificação de uma tendência internacional crescente, para utilizar tecnologias educativas inovadoras na prevenção do insucesso escolar, ao “primeiro sinal de dificuldade”.

ATB: Quais são atualmente os números e os custos deste problema do insucesso escolar em Portugal?

Pedro Cordeiro: Em Portugal, a taxa média de retenção de 34,5% representa um custo anual de cerca de 200 milhões de euros para o erário público. Por outro lado, a taxa combinada de retenção e abandono escolar precoce, de 14,6%, está acima da meta fixada pela OCDE para os países europeus até 2020, que aponta para valores abaixo dos 10%.

Neste cenário, verificam-se padrões preocupantes na retenção, desde logo pelo seu início precoce, situado no 2º ano do 1º ciclo do Ensino Básico, com picos nas transições entre níveis de ensino e com maior incidência no ensino secundário. Neste nível do ensino as taxas de retenção e abandono alcançam valores que podem ascender a 40% dos alunos.

Muitos dos alunos que abandonam precocemente os percursos de educação e formação apresentam percursos escolares com risco, na esfera pessoal, social e comunitária, com início precoce, que não foi adequadamente sinalizado, acompanhado e prevenido.

ATB: Neste contexto, que valor acrescentado é que o SAPIE-EB acrescenta à forma como atualmente se previne e combate o insucesso escolar?

Pedro Cordeiro: O SAPIE-EB vem responder a esta necessidade de passarmos a ter um olhar mais atento para os alunos em risco, nomeadamente para a forma como este é influenciado por fatores pessoais, familiares e comunitários.

Só será possível responder ao atual quadro de insucesso com campanhas preventivas, inovadoras e impactantes, se os docentes forem capacitados para compreender as suas causas. Esta necessidade é urgente e prioritária em termos da política educativa nacional e está a ser feito um forte investimento neste domínio.

A promoção do sucesso escolar e a prevenção do insucesso escolar e abandono escolar precoce é assumido pelo Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar (PNPSE). É um esforço partilhado que privilegia a articulação dos vários agentes educativos, como as autarquias locais, as instituições da comunidade e as entidades formadoras. Mas é nas comunidades educativas que são identificadas as áreas de intervenção prioritária e desenvolvidos os planos de ação estratégica para a promoção de sucesso escolar.

Atualmente, em termos gerais, há uma aposta na formação contínua de educadores e na monitorização e avaliação do sucesso dos alunos. As famílias e as comunidades são co responsabilizadas na construção de mais e melhor sucesso. E são avaliados os impactos das várias ações que vão sendo promovidas.

O SAPIE-EB, que tem uma forte vertente de inovação tecnológica, traz uma nova abordagem focada na antecipação e numa intervenção precoce, que é uma alternativa às atuais estratégias remediativas.

ATB: Como poderia explicar aos professores, que estão na sala de aula, os benefícios desta plataforma?

Pedro Cordeiro: O SAPIE-EB assenta numa plataforma digital que é uma ferramenta muito útil, intuitiva e de fácil utilização. Os seus utilizadores conseguem sinalizar, desde o jardim-de-infância, o risco de insucesso e abandono escolar de cada aluno.

A partir dos indicadores de aproveitamento escolar, assiduidade e comportamento, que vão sendo inseridos pelos docentes, a plataforma emite alertas, individuais ou de grupo e sugere intervenções preventivas alinhadas com as dificuldades identificadas. O progresso de cada aluno e o impacto destas intervenções vai sendo depois também medido e avaliado, permitindo a monitorização e eventual ajuste destas medidas preventivas.

Esta triagem de risco ajuda os professores a compreender e prever a probabilidade do risco precoce se transformar numa trajetórias de insucesso e de abandono escolar. Com base nesta informação podem agir preventivamente e adotar as estratégias mais adequadas, em função do nível de risco de cada aluno.

ATB: E que esforço adicional terão de fazer os professores que vão utilizar a plataforma?

Pedro Cordeiro: Tudo isto é possível sem acrescentar esforço aos professores e educadores, uma vez que o sistema se alimenta de dados existentes nas plataformas de gestão administrativa dos alunos.

Com base nesta informação e recorrendo à inteligência artificial, o SAPIE-EB identifica rapidamente e de forma rigorosa o perfil de risco do aluno(s), não só em termos gerais como também para cada dimensão (ex: assiduidade, aproveitamento) ou indicador de risco (ex: assiduidade nos primeiros 20 dias).

Assim, é diminuído o tempo e os custos com os processos de recolha de dados e de avaliação do risco, deixando ao professor/técnico mais tempo disponível para a intervenção direta com o aluno.

ATB: Não é exigido um esforço adicional aos professores mas, para implementar o SAPIE-EB, serão necessários mais recursos nas escolas?

Pedro Cordeiro: O SAPIE corresponde a uma solução tecnológica Simplex de gestão do conhecimento relativo ao sucesso escolar dos alunos. Mais do que duplicar esforços, utiliza os dados disponíveis para produzir conhecimento útil e personalizado.

Como já referi os dados de que se alimenta estão já, na sua esmagadora maioria, integrados nos sistemas de gestão administrativa disponíveis nos agrupamentos escolares. Após os procedimentos normais de confidencialidade, proteção e anonimato dos dados, é apenas necessário que as bases com esta informação sejam fornecidas à equipa de desenvolvimento do SAPIE-EB, que é responsável pela sua atualização.

O autarca, diretor do agrupamento ou professor tem apenas a necessidade de atualizar os dados dos seus alunos. A partir desse momento pode obter, em segundos, as mais diversas análises em função das suas necessidades e interesses, quer a partir de relatórios que surgem por defeito no sistema, quer personalizando a pesquisa a partir dos filtros disponíveis. As análises produzidas pelo sistema são complexas, mas também muito intuitivas, graficamente apelativas e muito fáceis de obter.

A solução SAPIE-EB não implica sequer a necessidade de instalar uma aplicação local para correr o programa, uma vez que o sistema corre em ambiente “Cloud”, bastando para o efeito que haja disponível uma ligação à internet. É uma solução bastante versátil e cómoda, que pode ser acedida a partir da escola, de casa ou de um dispositivo móvel.

ATB: Qual é a margem de erro?

Pedro Cordeiro: O conhecimento produzido relativamente ao risco apresenta um grande rigor científico. A indicação de risco tem uma taxa de acerto superior a 90%, o que permite antecipar com toda a segurança a trajetória de sucesso escolar do aluno.

ATB: A componente de machine learning/inteligência artificial é a maior novidade e o aspeto mais poderoso desta solução. Como é que funciona e se distingue das abordagens que têm estado a ser adotadas até agora?

Pedro Cordeiro: O estabelecimento de uma parceria com a Microsoft, permitiu trazer o SAPIE-EB para a segunda geração de sistemas de alerta precoce do insucesso escolar, agora baseados em sistemas de inteligência artificial. Contamos, com o apoio da Microsoft, desenvolver um algoritmo com base na ferramenta Azure Machine Learning e nos Serviços Cognitivos.

A ferramenta machine learning é bastante poderosa em termos da leitura preditiva do risco. Por um lado, ao contrário do modelo de checklist baseado na investigação, que considera limiares de risco “cegos” à realidade local, a ferramenta de machine learning usa os dados históricos do agrupamento, concelho ou distrito para calibrar os limiares de risco, adaptando-os à realidade local. Torna-os, por conseguinte, mais realistas.

Por outro lado, com esta tecnologia é possível recuar o processo de predição para níveis educativos tão recuados como o jardim infantil ou primeiro ciclo, quando o modelo baseado na ciência só se encontra validado para o 6º ano do 2º ciclo de estudos.

Desta forma, permite fazer análises mais precoces e assinalar, com maior probabilidade, o risco ao primeiro sinal de dificuldade. Adicionalmente, o machine learning apresenta uma robustez preditiva notável, que ronda valores sempre superiores a 90%, nunca possível de ser alcançada através do sistema convencional baseado na ciência.

Por último, permite identificar níveis de risco, baseados não só na análise por indicador ou por dimensão do funcionamento escolar, mas também permite obter um resultado geral de risco para o aluno, calculado a partir da análise combinada de diferentes fatores de risco.

A tecnologia machine learning supera e expande, desta forma, os níveis de análise convencional obtidos por observação direta e os modelos de checklist, fornecidos pela ciência. Trata-se sem dúvida de uma tecnologia que eleva a um novo patamar, a sinalização e monitorização do risco de insucesso e abandono escolar precoce.

ATB: Este nível de desempenho permite que o SAPIE-EB se posicione também como um projeto que visa a produção de conhecimento.

Pedro Cordeiro: Sim, pretende-se que o conhecimento produzido seja útil e cativante para os professores, permitindo-lhes obter informação abrangente e com utilidade futura que mostre, nomeadamente, qual o impacto das várias intervenções na promoção e prevenção do insucesso e abandono escolar precoce.

Mas estas conclusões podem depois ser também lidas em âmbitos mais alargados, por exemplo ao nível de cada escola e de cada autarquia.

ATB: O objetivo é disponibilizar esta ferramenta às escolas de forma gratuita. Como e a partir de quando é que isso será possível?

Pedro Cordeiro: Pretendemos que o SAPIE-EB chegue a título gratuito a todos os agrupamentos de escolas que delem possam beneficiar. Para alcançar este objetivo temos seguido uma estratégia de apresentação do sistema às Autarquias que, generosamente, facultam o SAPIE-EB aos agrupamentos de escolas colaborantes do respetivos concelhos.

Esta estratégia tem dados frutos e estamos presentemente a fechar a contratualização do sistema junto de várias autarquias, de norte a sul do país.

Poderão utilizar o SAPIE-EB, já a partir do próximo ano letivo, todos os agrupamentos que estejam abrangidos nos contratos que forem fechados até julho de 2018.

ATB: Estão satisfeitos com as reações a esta nova solução?

Pedro Cordeiro: De facto a disseminação desta nova tecnologia tem sido, até agora, um sucesso que superou todas as nossas expetativas.

Desde fevereiro de 2018 o SAPIE-EB tem sido apresentado, e positivamente apreciado por vários Agrupamentos de Escolas Nacionais, Municípios, Comunidades Intermunicipais e Áreas Metropolitanas de norte a sul do país.

A própria Direção Geral da Educação reconheceu também já o seu interesse, assim como a Fundação PT, com quem já temos um protocolo que reconhece a relevância estruturante e estratégica do SAPIE-EB nas ações de sinalização, monitorização e combate ao insucesso e abandono escolares a nível nacional.

A relevância do projeto para a saúde psicológica foi igualmente reconhecida pela Ordem dos Psicólogos, com quem já temos uma associação formal. Mais recentemente, estabelecemos uma parceria com a Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), que pretende alinhar o SAPIE-EB com os interesses de pais e encarregados de educação.

Em termos gerais, tem sido destacada a robustez científica do projeto, a sua utilidade prática e a possibilidade de as análises de risco poderem ser focadas simultaneamente num âmbito distrital, concelhio e também nos agrupamentos escolares de cada localidade.

ATB: A vertente científica do projeto nasceu consigo mas é hoje já suportado por várias outras pessoas ligadas à investigação, dentro e fora de Portugal. Quer apresentar-nos estes académicos?

Pedro Cordeiro: O SAPIE-EB é coordenado cientificamente pela professora Doutora Paula Paixão, professora associada da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, em estreita colaboração com uma rede nacional de entidades de ensino superior: A Universidade do Minho, Universidade do Algarve, Instituto Politécnico de Leiria e o Instituto Politécnico de Santarém.

Conta ainda com um conjunto de peritos na área da investigação e política educativa nacional, de onde salientamos o contributo do Professor Doutor David Justino.

Numa dimensão internacional destacamos a colaboração da American Institutes for Research, que desenvolveu um dos sistemas análogos mais credíveis e mais fortemente disseminados nos Estados Unidos. Outros apoios importantes passam por peritos de renome internacional como Johnmarshal Reeve, Kennon Sheldon, Lennia Matos ou Thanasis Mouratidis, que asseguram a credibilidade científica do projeto.

Eu próprio, assumo-me como o mentor e investigador principal do projeto.

ATB: Em termos de resultados, existe algum outro projeto semelhante fora de Portugal que permita prever que valor o SAPIE vai trazer ao nosso sistema de ensino?

Pedro Cordeiro: Sim, um estudo recente realizado nos EUA mostra que a implementação de um sistema análogo, o Early Warning System – Middle Grades, reduziu a taxa de reprovação às disciplinas isoladas em cerca de 20%.

Mais recentemente, várias experiências piloto com sistemas similares, têm também documentado a eficácia superior das técnicas de machine learning na redução do insucesso e abandono escolar dos alunos.

Em Casos de Estudo, como o do Distrito de Tacoma (consultado em 24/04/2018 https://customers.microsoft.com/it-it/story/tacomapublicschoolsstory), onde foi implementado com sucesso o Azure Machine Learning na predição do risco de desistência da frequência escolar, verificou-se um aumento nos indicadores de graduação no tempo esperado dos alunos de 55 para 82,6%.

Um outro estudo, desenvolvido no estado de West Virginia demonstrou um aumento nos indicadores de sucesso escolar bastante expressivo, com ganhos de 79,3% para 86,5% em apenas 4 anos.

ATB: É possível ter acesso a uma demonstração prática da plataforma? O que é que os interessados devem fazer?

Pedro Cordeiro: Sem dúvida que sim. Temos estado a fazer demonstrações do SAPIE-EB em todo o território nacional e temos todo o gosto em falar com quem tiver interesse no projeto.

Basta, para o efeito, que seja endereçado um pedido nesse sentido à Associação Tempos Brilhante e, oportunamente, será marcada uma reunião para se proceder à apresentação do sistema.

Sem qualquer compromisso são mostradas as várias funcionalidades e características do SAPIE-EB, bem como o processo da sua implementação no terreno. Com esta informação os interessados poderão depois refletir sobre a sua credibilidade científica e utilidade prática. Podem entrar em contacto connosco através do email pedro.cordeiro@atbrilhantes.pt

ATB: Quando chegarmos ao final do próximo ano letivo, ano de estreia do SAPIE em Portugal, que objetivos espera terem sido atingidos?

Pedro Cordeiro: O SAPIE tem um elevado potencial para ser um projeto de referência no futuro da educação.

O compromisso SAPIE-EB é o de alcançar, nos próximos 3 anos os seguintes objetivos: Finalizar a plataforma de suporte ao SAPIE, implementar o sistema em 75 agrupamentos de escolas em todo o país, contribuir para diminuir do insucesso e abandono escolar entre 3 e 20%, publicar 13 artigos científicos e organizar 3 conferências científicas na área temática da prevenção do insucesso e abandono escolar precoce.

Pretende-se ainda iniciar o processo de internacionalização do sistema em 2 países de língua portuguesa e 2 países da União Europeia.

ATB: Finalmente, como vê o papel da Associação Tempos Brilhantes neste percurso, já tão bem sucedido, do lançamento do SAPIE-EB?

Pedro Cordeiro: A Associação Tempos Brilhantes tem um papel muito importante no SAPIE-EB.

Em primeiro lugar, pela forma como acreditou há cerca de um ano atrás no projeto e apostou na contratação dos meios que permitiram o seu desenvolvimento: o investigador principal e um gestor operacional.

Em segundo lugar, a forte presença da rede Tempos Brilhantes na área da educação tem facilitado o acesso ao território educativo, bem como às estruturas de poder regional ou concelhio, agilizando contactos e reuniões, que são essenciais para fazer chegar o projeto ao terreno.

A ATB tem-se igualmente destacado pelo apoio técnico e comercial que muito tem contribuído para desenhar uma estratégia de implementação do projeto no terreno de forma sólida e realista.

Ao longo deste processo a ATB tem ainda celebrado vários protocolos com entidades de ensino superior, dando oportunidade aos alunos e investigadores, de desenvolverem os seus projetos no âmbito do SAPIE-EB. Esta tem sido uma forma notável de aproximar o conhecimento e os produtos de investigação à realidade educativa em Portugal.

Em suma, a ATB, não só teve um papel crítico no lançamento do SAPIE-EB como também o tem mantido na sustentabilidade do projeto ao longo do último ano.