Paula Paixão é sub diretora na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e também coordenadora científica do SAPIE-EB. Nesta sua qualidade, explica-nos o carater inovador do projeto.

ATB: Em que contexto é que o SAPIE-EB chega a Portugal?

PP: Este projeto surgiu no decurso do trabalho do Professor Pedro Cordeiro e de algumas ideias que surgiram no âmbito do seu doutoramento, que acompanhei. Houve uma preocupação em enquadrar de uma forma genérica as temáticas do insucesso e do abandono que, por cá, têm ainda níveis bastante baixos.

A minha experiência e interesse por esta área levou-me a fazer um levantamento sobre o que de melhor se faz lá fora e acabamos por começar a trocar ideias concretas, sobre o que de mais inovador se poderia trazer para Portugal.

ATB: Ao pensarem neste modelo, que linhas mestras definiram para a sua implementação?

PP: Valorizamos uma abordagem assente num ponto de vista positivo. A promoção do trabalho dos agentes educativos, com particular foco nos professores e nos outros principais agentes do desenvolvimento humano, especialmente na adolescência e na infância. Quando começamos a pensar como é que esta solução poderia ser inserida no nosso sistema educativo, não quisemos que fosse demasiado intrusiva.

Outro cuidado que tivemos, foi evitar que o uso da plataforma se traduzisse num acréscimo de trabalho para os professores. Procuramos antes que estes tivessem acesso, em tempo real, a dados que deem suporte aos seus processos de decisão e os melhorem. Não apenas no terreno, no dia a dia das escolas, mas também ao nível da investigação científica.

Acreditamos que o estudo desta realidade poderá originar novos indicadores, que nos permitam vir a ter intervenções mais eficazes.

ATB: O SAPIE-EB usa novas tecnologias educativas que não existiam há algum tempo atrás. Que benefícios elas nos trazem?

PP Com estas tecnologias é possível extrair um conhecimento valioso, a partir de dados complexos. A sua utilização permite-nos criar novas formas de intervenção para combater os problemas que vão sendo identificados. Mas, por outro lado, elas facilitam também a promoção dos recursos que vamos reconhecendo. São um recurso essencial do projeto.

Através de parcerias e da transferência destes dados para a investigação, poderemos alavancar uma promoção conjunta de conhecimento, que junte escolas e universidades, na identificação de problemas e na inversão de trajetórias. Como resultado, teremos novas soluções para melhorar o sucesso na escola.

No futuro, para além da promoção do sucesso, poderemos vir ainda a desenvolver outras áreas de intervenção, pois estas novas plataformas permitem-nos trabalhar variáveis muito diversas. Podemos construir e validar vários tipos de respostas.

ATB: É interessante estar a associar a tecnologia à colaboração. Como é que vê estas sinergias, mais em detalhe?

PP: Um dos aspetos mais importantes do SAPIE-EB é precisamente aproximar as pessoas e torna-las parceiras. Ainda existem muitos grupos a trabalhar sozinhos, por vezes nas mesmas áreas ou em temas que se complementam. Esta plataforma permite que estejam todos unidos, a trabalhar em rede.

Um dos benefícios desta nova abordagem será podermos obter respostas com maior significado para todos. Deixar de haver “peões” e passarmos todos a ser “agentes” ativos nestes processos. Então o discurso alinha-se e o diálogo torna-se inevitavelmente mais produtivo.

ATB: São várias as tecnologias utilizadas. Mas qual é a principal e o que a caracteriza?

PP: O Machine Learning é sem dúvida a tecnologia principal deste projeto. Permite-nos trabalhar o valor preditivo de todos os indicadores, caracterizar perfis, trajetórias de risco e outros aspetos que os agentes escolham, com base em informação mais geral, de âmbito mais local ou ambas ao mesmo tempo.

É possível extrair informação com uma grande nitidez. As pessoas depois podem apropriar-se deste conhecimento e trabalha-lo a nível de um contexto local, por exemplo.

ATB: Referiu que este projeto vem para Portugal na sequência de uma análise ao melhor que se faz lá fora nesta área. Mas é apenas uma transposição do que já existe ou pretendem que o SAPIE-EB seja também inovador em algum aspeto?

PP: Temos já uma rede de parceiros, constituída por várias instituições do ensino superior, que vão definir indicadores de variáveis de natureza não cognitiva. Noutros países, há um conjunto de variáveis que são geralmente trabalhadas em projetos semelhantes.

O nosso objetivo é enriquecer o modelo com novos indicadores. Mas este é um processo que ainda está em curso.

ATB: Quais são as suas expectativas para os primeiros tempos da estreia do SAPIE-EB?

PP: Espero que esta ferramenta nos permita termos um avanço real e muito significativo em termos de investigação, no que diz respeito à promoção do sucesso e ao combate ao abandono e insucesso escolar.

Por outro lado espero que o SAPIE-EB faça a diferença no contexto educativo e expanda o papel dos agentes educativos. Espero que isso possa acontecer de uma forma natural, não intrusiva.

E por fim espero também que o projeto mude a relação entre os diversos agentes educativos, pais, professores, alunos, universidades e o próprio ministério da educação. Espero que possa ser facilitada uma nova forma de trabalhar, um alinhamento entre todos e que sejam potenciadas novas parcerias que não existem ainda.

Confesso que eu própria não consigo ver ainda tudo. Mas estou convicta de que o SAPIE-EB nos trará muitas oportunidades de melhorar o sistema educativo.