Ainda antes do regresso às aulas, em Quiaios, vários jovens locais deixaram para trás os ecrãs, telemóveis incluídos e, durante dez dias, desfrutaram de um campo de férias que os levou para bem longe das suas vidas programadas e cheias de solicitações.

Tomás Cruz, monitor da ATB, explica que couberam muitas coisas importantes nesta viagem para fora das rotinas. A primeira de todas foi uma aprendizagem sobre “estarem juntos, a colaborar e ao mesmo tempo a respeitar o espaço de cada um”. Tudo na companhia dos monitores, uma espécie de “irmãos mais velhos”, que iam orientando o grupo mas sempre abrindo espaços para a autonomia e pro-atividade de todos.

Algumas caminhadas mais exigentes testaram a sua resiliência, ou o carater de cada um diante das dificuldades. Tiveram de lidar com limites e, entre o orgulho e a surpresa, acabaram por perceber que eram capazes de os superar. Perceberam que podem progredir e que podem estabelecer novas metas para as suas vidas. E notaram também que o espírito de equipa e a entreajuda mudam tudo.

Repararam ainda, de uma forma diferente, na natureza que os rodeia. Conheceram várias espécies protegidas, experimentaram amoras silvestres, aprenderam a reciclar muitas coisas e limparam a praia, livrando-a do plástico.

O planeamento dos dias estava sempre em aberto. E cabia-lhes a eles decidir o que fazer, a partir de propostas lançadas pelos monitores. Mas com compromissos assumidos e balanços ao fim do dia. Já mais para a noite, a co-construção de cada dia ia sendo sempre avaliada e discutida por todo o grupo.

Tomás Cruz conta que “para muitos, participar em tarefas caseiras foi uma novidade”. Arrumar, preparar lanches, por a mesa. Em casa, os pais acham muitas vezes mais fácil e mais rápido não lhes darem a vez. Mas em Quiaios foram mesmo eles os responsáveis e passaram a dar mais valor a todas essas pequenas-grandes coisas.

Houve programas  em que escolheram olhar para trás, para as raízes e para as tradições locais. Ao falarem com os mais velhos, descobrirem neles muitas histórias e outro tipo de “novidades”. Exploraram ainda várias instituições locais como a Junta de Freguesia e interessaram-se pelo que ali se passa e pela forma como as suas missões afetam (também) as suas vidas.

Apesar de viverem numa aldeia, estes jovens nem por isso têm vidas pacatas. A azáfama da escola, dos telefones, da música e das muitas atividades não os deixam quietos. Tomás Cruz explica que  “têm muito pouco tempo disponível para explorar, brincar e serem criativos”.

Neste Campo de Férias que a ATB desenhou para eles estiveram entretidos, mas a olhar à sua volta e a crescer. Tiveram uma atenção uns aos outros a que não estão habituados e um convívio que lhes encheu as medidas. E a experiência foi tal que até se esqueceram dos telemóveis. Até regressarem outra vez. Só que agora com as vidas cheias de todas estas memórias.